A cachorrice do cachorro, em um teatro que vale a pena

“Paulo Vítor tem um cachorro chamado Paulo César”

Assisti ontem o espetáculo solo “Cachorro enterrado vivo”, em cartaz até segunda-feira no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte.

Um presente, diante de tantos lugares comuns no teatro belorizontino durante as campanhas de popularização!

Dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho, direção de Marcelo Fonseca e atuação de Leonardo Fernandes. Entendi que estreou no ano passado e é um trabalho de ‘produção independente’: bancado pelo próprio ator (o que, por si só, já revela um mérito, na terra dos Editais…). Cenografia e figurino de Cícero Miranda, preparação corporal de Eliatrice Gischewski. Tudo muito especial, que bom encontrar tanta qualidade.

O ator encarna três personagens, um homem abandonado pela mulher, um homem contratado para dar fim no cachorro, e o cachorro. Durante quase uma hora assistimos às divagações dos três, performados de modo cuidadoso e muito, muito interessante – especialmente o cachorro, que se chama Paulo César (rs) e que monologa com a plateia durante os (já angustiantes) primeiros quinze minutos do trabalho.

A cachorrice do cachorro. Há cachorrice de cachorro no corpo do ator! E certamente em seu coração & mente. Em uma corporalidade suada, sofrida e extremamente angustiada (e portanto angustiante), o ator nos mostra os três pontos de vista… da trama. Um cachorro “nada fácil” praticamente abandonado pelo marido de sua dona, que o(s) deixou. Segundo o diretor, um trabalho que fala sobre “amor, carinho e desespero”. Para mim, um trabalho que diz da arte do ator e da arte de ser ser vivo. Mas especialmente, um tipo de teatro que consegue retratar a angústia – tanto do animal quanto do homem.

Vale muito a pena conferir. Uma dramaturgia impecável, trabalho poético com a palavra falante lapidada como diamante, monólogo que conversa: com a afetividade e o estado de espírito do animal de estimação, com a solidão e com o desejo de morte. Da cena e da plateia também.

foto de divulgação

2 comments for “A cachorrice do cachorro, em um teatro que vale a pena

  1. Leonardo Fernandes
    16 de janeiro de 2016 at 17:50

    Que bonito… Obrigado pelas palavras, Marina!Boa essa interlocução… Beijo meu e de toda equipe do Cachorro. Léo.

    • agachamento
      16 de janeiro de 2016 at 23:42

      Leonardo, sou eu que agradeço poder ter tido a experiência de “expectação” (como se diz, rs). Marina

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