Que venha o novo!

Miró, 1958: novo ou velho?

Estive no final do ano com uma amiga que vejo pouco, nossa amizade existe e persiste desde os “idos tempos” da Casa do Ventoforte (década de 1980). Estávamos conversando, dentre muitos outros assuntos, sobre os artistas educadores mais novos, de outra geração – a geração ‘que chegou’.

Para nós duas o trabalho teatral é um tear tecido cuidadosamente em grupo; um grande patchwork, um trabalho em processo feito de cumplicidade e criação, discussões e brigas também, mas necessariamente uma coisa grupal.

Percebemos que hoje o nosso teatro pode ser visto como ‘datado’. Algo próprio dos anos 1970 e 1980; eu por mim ouso dizer: “antes dos Editais”.

Pois vemos os mais novos “virar grupo” quando surge a verba do Edital: simples assim. Na nossa ótica antiga – para eles talvez antiquada, ultrapassada – não se faz teatro assim. Se faz um evento, uma animação cultural, uma ocupação rápida de um lugar e/ou de uma ideia… Para as antigas, isso se chamaria um trabalho “externo”: ao que nós contrapomos um trabalho “interno” (onde menos é mais) na lógica criativa na qual fomos, por assim dizer, formadas e feitas.

Em meu trabalho junto aos alunos que estudam teatro na UFMG, tento não usar esses termos – externo ou interno. Procuro falar de uma tradição e de uma necessidade de estudo; graduar-se em teatro, estar na Universidade por quatro anos (ou mais) é algo feito de leitura e escrita, além e aquém do “externo” – que eu hoje chamaria de “fazeção”. Fazeção tem a ver com um tipo de alegria que, já dizia Vinícius de Moraes, não dá samba. Fazeção tem a ver com um tipo de ansiedade que os psicanalistas, não por acaso, chamam de “atuação” (acting out; atua-se, em ação, a ansiedade vivida no self). Um tipo de pressa. Uma conexão que não sabe ver filme japonês (aliás, fomos ver, juntas, um filme japonês maravilhoso, em cartaz em São Paulo: Sabor da vida, direção de Naomi Kawase).

Penso que as das antigas precisam lidar com as novinhas. A tradição precisa suportar bem o novo, o que não nos diz nem nos cala fundo, mas existe no mundo. E os artistas mais jovens precisam a aprender a usufruir do tempo da criação. Um tempo bem diverso do calendário, dos prazos, da imensa e intensa necessidade de fazer acontecer.

“Fazer acontecer” é uma expressão absolutamente ocidental e que todo e qualquer empresário tem na ponta da língua. Para a velha guarda do teatro, “fazer acontecer” é algo externo, apressado, ansiógeno e, no território do ensino de arte, até violento: se pensarmos em um outro tempo, agora, falo do tempo da criança. O tempo de criação das crianças não é o tempo de uma aula, de um semestre, de uma “temporada”. O tempo da criança é o dela; não sabemos nunca de antemão. Saberemos com o convívio qual o tempo de cada um.

“Acontescência” seria uma expressão mais oriental e talvez mais condizente com a iniciação artística de crianças e jovens, cujo mote não é formar artistas. “Deixar acontecer” o ponto de vista da criança mesma é uma arte zen. É algo que não se ensina. É um dom e uma sina. É uma linha, um ponto e uma curva de trabalho. Tal qual uma obra de Miró:

Miró, 1954 / Acervo Fundação Guggenheim

 

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