O mundo como vitrine

O mundo como vitrine (e crianças não são marzipans)

crianças não são docinhos

A semana foi tomada por um debate que parece novo, mas penso ser antigo. A Rede Bandeirantes montou o programa “Master Chef Junior” e estreou, com crianças entre oito e doze anos de idade, “cozinheiros mirins” (sic). Logo a seguir, aconteceram trocas de mensagens entre homens na internet, falando, com conotações sexuais, sobre uma das crianças participantes.

Temas que esta discussão traz, em termos psico-sociais: visibilidade/exposição de crianças na mídia; voyerismo; exibicionismo.

Estas “palavras-chave” estão no acontecimento em diferentes níveis: na própria mídia, que monta programas com “personagens crianças” – desta vez, são “elas mesmas”, selecionadas por seus dons culinários, mas a situação televisiva pede uma ou duas máscaras, uma ou duas tipologias de cada criança, onde uma delas será, sempre, “máscara social” do que é ser criança selecionada para a TV; também as palavras-chave estão presentes nas famílias, que concordaram, obviamente assinando contratos minuciosos, com a exposição dos filhos; e por último, as palavras são também palavras de ordem para os homens que escreveram obscenidades – eles querem, sim, causar furor, que falem deles, que tentem achá-los, advogando ao mesmo tempo seu “direito de anonimato”, e uma porção de coisas deste teor. São exibiconistas e voyers. Mas e os criadores e produtores dos programas com crianças envolvidas? E as famílias? E a indústria midiática e cultural, incluindo patrocinadores e serviços que serão associados a crianças e jovenzinhos na cozinha, hora e vez dos brasileiros? (O programa é franquiado).

Penso ser uma atitude ingênua e maniqueísta atacar os “pedófilos” de modo a “extinguir o mal pela raiz”. Falta debate adulto sobre mídia, culturas da infância e juventude, e falta diálogo que inclua as crianças sobre direitos e deveres dos pais/cuidadores. Retomei a leitura de um texto que nos ajuda a pensar de modo mais contextualizado e filosófico; é o capítulo “A crise na educação”, que encontra-se no livro Entre o Passado e o Futuro, escrito por Hanna Arendt no início da década de 1960 e recentemente reeditado pela Editora Perspectiva. Assim convido o leitor do Agachamento a ler também, de modo a deixar a discussão menos violenta (violência gera violência) e mais propositiva. Onde estão os adultos?

 

2 comments for “O mundo como vitrine

  1. Luciana Cezário
    26 de outubro de 2015 at 18:08

    Oi Marina, acho bem interessante essa reflexão e a crítica endereçada não só aos homens que fizeram os comentários, mas aos adultos desta sociedade, especialmente à mídia que, na minha opinião, contribui sim com uma certa “adultização” e erotização de crianças.

    Acho importante refletir também que além deste ponto que você tocou ainda há uma questão de gênero importante na forma como esses homens se expressam, evidenciando, inclusive, uma cultura do estupro.

    Vou ler o texto indicado..

  2. 26 de outubro de 2015 at 22:43

    por essas e outras tenho achado que o desaparecimento* pode ser a verdadeira prática de resistência do contemporâneo: desaparecer das mídias, desaparecer das redes sociais; desaparecer produzindo o mínimo necessário para cumprir com as tarefas acordadas. voltar pras famílias, pras comunidades, pro boca a boca; não registrar sua obra de arte presencial.

    como incentivar essa ideia através da docência em teatro e performance é uma questão que me ocupa.

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