Um modo de morar na espiral da vida (e da morte)

Brincar, criar, performar

Estou preparando minha ida a São Paulo para falar para os artistas-professores do PIÁ – Projeto de Iniciação Artística. Trabalhei por poucos meses neste projeto, antes de prestar concurso e me mudar para Belo Horizonte; mesmo antes disso, eu tinha falado por algumas vezes para os professores. Na época, muitos leram meu artigo “A criança é performer” e, em uma espécie de efeito dominó, queriam “me encontrar” presencialmente, a partir especialmente do fato de eu ter trabalhado na EMIA-SP por quase desesseis anos. A EMIA e o PIÁ são projetos importantes da Secretaria Municipal de Cultura: a EMIA é uma escola de iniciação artística; o PIÁ um projeto que leva iniciação em artes para escolas e bibliotecas da cidade.

O leitor desavisado pode achar que seria fácil falar “na sua casa”… sim, me sinto em casa entre os artistas-professores do PIÁ; mas há alguns desafios, que eu mesma lanço para mim. O principal é a recusa em ser “guru”. Isso significa manter uma espécie de espírito crítico, ou ainda, de barreiras [invisíveis] ao amor incondicional que muitas vezes parece vir da plateia jovem: leitora dos meus textos, livros e blog… (É que ser amada é tão bom! Rs)

O risco é ser seduzida pelos “fãs” – e em troca seduzi-los. Às vezes também penso sobre isso na docência em teatro, na UFMG. Lembrei então outro dia da expressão “amor casto” – Françoise Dolto dizia isso sobre o amor entre professor e aluno (e entre pais e filhos). Um tipo de amor que não tem interesses físicos ou políticos ou financeiros: um interesse vivo pelo outro, em busca de trocas e de um mundo melhor.

Fazer teatro é imaginar um mundo melhor.

E as imaginações podem se espacializar por aí… Como é o que os leitores “enxergam” – e o que constroem – a partir dos meus escritos?

Um mundo melhor para as crianças, as crianças aqui e agora, não a infância que deveriam ter, ou a que tivemos… Sem nostalgia ou idealizações, como proporcionar o brincar que Winnicott nos ensinou ser ato performativo da saúde psíquica? Certamente não é comprando brinquedos nem levando os meninos no parquinho e dizendo… brinquem aí!

Criem aí! Improvisem aí! Performem aí!

Muitos acham que são esses os enunciados da criatividade, do ato de improvisar, do ensino-de-arte-contemporânea.

Mas tudo isso está longe do “brincar livre e criativo” ao qual Winnicott se refere. Não devemos esquecer que ele morreu em 1971. Seu livro O brincar e a realidade estava sendo escrito… Assim, para que os jovens artistas-educadores compreendam sobre o que ele fala, sobre o que eu quero falar, sobre o que querem as crianças quando arrumam seus jogos e brinquedos para brincar de faz de conta no chão… sugiro que leiam – além de Winnicott e Machado (rs) – Richard Schechner, que, em entrevistas e em Seminários da Univesidade de Nova Iorque, trabalha a categoria de pesquisa e análise “Os Anos Sessenta”.

Mas atenção: não se trata de nostalgia nem pura re-edição! É estudo histórico do nascimento da performance e seu estabelecimento como campo de trabalho e estudo. E aquele tempo, segundo Schechner, “Os Anos Sessenta”, duram de 1960 a 1980, aproximadamente.

Pois este é o ponto: como adultos, mesmo brincantes, devemos trabalhar e estudar, com rigor e vigor, para chegar em um ponto do tabuleiro do jogo, onde levamos as crianças, imaginativamente, para além e aquém das suas vidas cotidianas; e que elas mesmas, ao fazerem teatro, imaginem um mundo melhor. Imaginar para materializar.  Performar o si mesmo. Compreender o outro e, com ele, ir ao mundo compartilhado. Lá estão as teatralidades, as musicalidades, as corporalidades e as espacialidades. Um lugar para habitar. Modos de morar na espiral da vida (e da morte).

 

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