Carta ao menino Aylan

está acontecendo no século XXI

Peço desculpas por você ter nascido no tempo da maldade, navegando dentro de um perigoso barquinho ao invés de estar brincando de dobraduras, de criar castelos na areia, ou de montar seu barco com peças de lego. Não houve tempo para o faz de conta: você mergulhou na dura realidade dos adultos, cedo demais, e com injustiça.

Me envergonho de ser adulta nesse momento, ser adulta e poder apenas lhe escrever uma carta póstuma.

Não há explicação para o que te aconteceu. Só poderemos viver o luto – os que continuam vivos precisam fazer o luto, e continuar vivendo uma vida minimamente ética e correta, e que ética e correção impliquem fazer algo em nome de tantos outros meninos vivos: para que possam viver o tempo dilatado da infância, sem navegações de risco.

Tenho mesmo muita, muita vergonha de ser adulta nesse momento. Que seu afogamento instaure suspensão do tempo da maldade, redenção dos adultos, novos modos de pensar os êxodos e as diásporas, crianças disparramadas e adultos entochados em suas políticas de fronteira e de contenção.

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