A fenomenologia é como um jardim japonês

Desde o começo do ano tenho a experiência em orientar cinco alunas do DOCEI – um curso de especialização/formação em Educação Infantil na FaE, em parceria com o MEC. São cinco em quarenta em cinco, que escolheram, em seus Trabalhos de Conclusão de Curso, tematizar o ensino de arte. Quatro inicialmente escolheram falar sobre “o desenho”; e uma, sobre “música”.

De modo delicado, as orientações as conduziram a revelar pessoalidades… o que é “desenho”? Qual o grupo, idades, temperamentos, do grupo de crianças com o qual irá trabalhar? Seria possível “ensinar música” a bebês? E assim por diante. Surgiram das questões iniciais cinco palavras-chave: SONORIDADES / ESPACIALIDADES / MODELAGENS / CORES e MISCELÂNIA; cada pesquisa  ganhou rosto, perspectiva, luz e sombra; por meio das orientações, fui propondo contornos que surgiram de rabiscos e garatujas… ideias mais ou menos ingênuas das alunas para seus programas de aulas.

Em um determinado momento, mais ou menos no meio do processo, um debate bagunçou nossos jardins japoneses. As alunas foram induzidas a duvidar de si, do percurso biográfico e etnográfico, modo de ser pesquisador que não se intoxica de teorias, mas bebe das fontes de água que são as crianças mesmas.

Tristemente eu não estava com elas quando isso aconteceu e, quando nos reencontramos, achavam que deveriam mudar de rumo… de modo a seguir o caminho mais percorrido.

Com firmeza e paciência discuti com elas o que é a fenomenologia da criança,  quais seus ganhos ou méritos. Sim, é a via menos percorrida – mas um dos caminhos possíveis. O principal ganho e mérito: fazer foco nas crianças e em suas experiências vividas cotidianamente lhes dá um presente, que é o agachamento do adulto. “Ir ao chão, onde a criança está”. Perceber e compreender seus modos de ser e estar, de modo a estar-com; dialogar; acolher e propor coisas suficientemente sutis para que aprendam mais e apreendam mais o mundo compartilhado, com curiosidade e prazer: menos bronca e mais ações performativas propostas por professores pesquisadores.

Como e por que alguém acharia que trabalhar isso e desse modo é frágil, inócuo ou incorreto? O “isso”: o discurso/relato da pesquisadora iniciante com foco na criança mesma; o “modo”: cultivar um jardim japonês da convivência em fluxo contínuo entre adultos e crianças, sem necessidade de flores espetaculares ou brinquedos especializados. Ainda acredito nisso, e só faz sentido para mim estar em formações com professores de crianças pequenas se puderem surgir esses jardins: fendas, entre-lugares, sutis antiestruturas nos modos de vida da criança e do professor.

 

7 comments for “A fenomenologia é como um jardim japonês

  1. Denise
    9 de agosto de 2015 at 22:43

    Marina,
    Confio em você como minha orientadora e não tenho motivos para desistir do nosso objetivo. Tenho certeza que já somos vencedoras.
    Abraço

    • agachamento
      10 de agosto de 2015 at 12:01

      Olá Denise, fico feliz com seu recado, eu também confio em vocês e, como disse Gilberto Gil: “tudo tudo vai dar pé” (rs). Obrigada pela visita ao Agachamento,
      Marina

  2. Georgia Izabella
    10 de agosto de 2015 at 11:17

    Marina, como estou aliviada com a sua orientação no sábado.A cada momento acredito mais na nossa formação e que a modelagem em relação a fenomenologia é muito mais rica e plena para analisar o desenvolvimento da criança.

    • agachamento
      10 de agosto de 2015 at 20:32

      Sim Georgia, apenas lembrando que não vamos querer “desenvolvimento” no sentido das fases e da evolução padrão, mas antes, um conhecimento dos modos da criança de aprender e apreender as coisas do mundo.
      Um abraço da Marina

  3. Márcia Valéria
    10 de agosto de 2015 at 12:25

    Minha orientadora Marina,
    Desde o momento em que me propus a participar do DOCEI, tinha a certeza da monografia voltada para a Arte na Educação Infantil. Encontrar você não foi um acaso, não acredito em acasos, e sua metodologia posposta veio de encontro com meus anseios. Trazer para as crianças da UMEI uma prática artística que favoreça o processo de aprendizagem e as dê prazer, plantando nelas uma sementinha de intelectualismo. Quem sabe começaremos a construir um lindo jardim japonês! Estaremos juntas!

    • agachamento
      10 de agosto de 2015 at 20:34

      Márcia, a sementinha é de conhecimento afetivo também, né? Precisamos cuidar para não “intelectualizar” precocemente as crianças pequenas.
      Bjo da Marina

  4. Karen Knor
    18 de setembro de 2015 at 01:39

    Hey, Marina!
    Qta saudade…
    Estava lendo seus posts, contemplando. Aí parei aqui pra perguntar se elas haviam continuado e me deparei com os comentários. Tive a resposta: gente linda e corajosa seguindo a via menos percorrida! Ah, quantas vezes ouvi essa frase de ti… Continuemos!
    Amor,
    Karen

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