Cadê as novas constelações?

Brincar, criar, amar: de volta ao começo

As experiências das duas últimas semanas foram intensas, tessitura final do primeiro semestre de 2015 – um ano nada fácil, inclusive, é claro, nas Universidades federais.

Tudo que vi, palpitei, participei, decisões que tomei (notas, aprovações, recados para alunos…) me levou de volta a um princípio norteador do meu trabalho com crianças: o brincar.

Para Winnicott, “o brincar livre e espontâneo”; para Victor Turner, o brincar que gera “antiestruturas”; para Françoise Dolto, o brincar que espacializa “onde está isso que me dá a condição de ser”. E voltando a Winnicott: é preciso antes ser, para depois fazer.

Quando vemos, no campo teatral (ok, um campo de fazeres!), pessoas extremamente ocupadas em fazer… mas esvaziadas do ser, pensamos na própria formação dos artistas-professores: pois alguém foi modelar nesta fazeção! Ou não?

De minha parte quero muito ser modelar no pedaço de argila “livre e espontâneo” (rs) – uma quase ironia, pois a argila tem vida a partir das nossas mãos, de projetos concretos de coisas feitas com barro; mas o que quero marcar é o seguinte: na chave da fazeção, a pessoa produz com forminhas excelentes; estrelas, meias-luas, bolinhas para colares… Na chave da criação, a pessoa se entrega ao pedaço de barro para ver o que ele comunica: relação de mão dupla e que também clama por uma terceira via, a ancestralidade do barro, do que é a terra preparada para ser outra coisa?, retomada, a cada vez e sempre, da invenção do torno e das queimas…

Ta faltando reflexão, é esse meu diagnóstico.

E nesta direção, o bom começo é o brincar! Brincar imaginativo, visível e invisível, abertura de possibilidades de outras coisas, outros mundos possíveis, nos quais combino gesto e palavra com o outro, que compartilha da invenção. Seria simples, mas minha observação tem sido de que, nos modos de ser e estar dos jovens que foram crianças há tão pouco tempo, está difícil ser.

sabia que a Terra não é nem azul nem redonda?

 

E agora? Haveria um elo perdido? Como ensinar teatro nesta chave, por exemplo? Não é negando a estrela, a meia lua e a bolinha, nem amassando apenas o barro “pela experiência” do barro (uma modinha, o tal “saber pela experiência”… e todos leram só um texto de Larrosa para “justificar” seu monte de barro).

Um caminho é a pesquisa da poética própria: constelações feitas de outras luas, outros sóis, e muitos, muitos marcianos. Cada vez mais percebo que isso não se ensina, se vive. E agora?

 

2 comments for “Cadê as novas constelações?

  1. 8 de julho de 2015 at 21:46

    Me identifiquei com o texto. Às vezes me acontece algo, então eu olho para mim mesma e vejo que me deixei levar pela correnteza do trabalho. É a hora de parar, de diminuir, de respirar (inspira-expira) e, que bom lembrar, de brincar. Levar as coisas a sério demais pode até ser “producente” (fazedor de números, de quantidades, de belas estatísticas), mas não produtivo, criador.

    Ao mesmo tempo, a modinha da experiência (já velha – eu estava nessa “vibe” quando defendi o mestrado lá em 2009, tendo lido apenas esse texto do Larossa – shame on me [fora que o Dewey é lá dos anos 40 e já fomos e já voltamos…]) me preocupa um pouco. Parece que no campo do ensino do teatro nós não aprendemos nada com a história do ensino de artes visuais, com as distorções do Read, a trágica culminância na livre expressão e tudo no entorno disso. Sem falar na experiência da Escola Nova Brasileira (eu tenho chamado a modinha da livre-expressão-do-indivíduo-pela-experiência de “Escolanovismo Requentado”, aceito sugestões para apurar o conceito, rs). Bem, fica aí um receio e uma reflexão pra nós educadores enquanto conjunto.

    Obrigada por continuar compartilhando suas impressões e reflexões, Marina. 😉

    • agachamento
      9 de julho de 2015 at 10:37

      Thaise, gosto sempre quando “você vem” no Agachamento, eu também me identifico com você, e acho mesmo que o caminho é um “pensar em conjunto”, como você diz no seu comentário… bjos e obrigada pela companhia sempre atenta, Marina

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