Behaviorismo cultural

Igual dizemos “jogar conversa fora”, eu aos domingos costumo “jogar tempo fora” nas noites, chamando o sono… muitas vezes assisto à (tosca) programação da tv aberta: Domingo Espetacular e Repórter em Ação. Foi assim que tomei conhecimento de uma grande polêmica, brasileira e contemporânea: a da MC Melody em seus oito anos, filha de um músico do funk lançada mini-funkeira por ele.

Ao comentar sobre ela em sala de aula, percebo que quase todos meus alunos da UFMG sabiam do que se tratava, e me contam dos MCs mirins, especialmente do MC Brinquedo. Uma das alunas considera hipócrita a discussão em torno da MC Melody pois nada nem ninguém impedia meninos de “se erotizarem”, e ganharem seus momentos de fama.

Para quem não está acompanhando, está havendo um tipo de embate entre o Ministério Público e as famílias, e respectivos advogados, com relação aos modos de vida desses músicos mirins, na toada do funk. Há inclusive ameaça de retirar a guarda da menina MC Melody do pai, que a colocou em destaque num show seu, em uma coreografia popozuda. Percebi que a Rede Record (pasmem!) deu um grande espaço para o pai e a filha cantora-e-dançarina argumentarem… sim, ela brinca e vai para a escola; sim, ela gosta de cantar e dançar! Tudo com cara de politicamente correto: o pai retratou-se e disse “agora acho exagerado”…

A reportagem nos alienava das questões financeiras e sexuais do embroglio todo. Quanto dinheiro o pai já “levantou” com o sucesso da filha, e como e por que um pai colocaria sua filha de oito anos para rebolar e fazer babar uma plateia de lobos maus…?

Hoje fui no youtube conhecer os funkeiros meninos. Assim surgiu o desejo de fazer esta postagem: invento a expressão “behaviorismo cultural”.

O roteiro do video que assisti (que já está com quase 2 milhões de visualizações) é um verdadeiro work in process / trabalho em processo do sucesso dos meninos; inicia-se com eles indo fazer a prova dos figurinos na costureira. Cada um tem seu style; dois deles são menores de idade. São os MCs do “Quarteto Diferenciado”. Em seguida toca a campainha, é o empresário: arrumado, cabeludo, maquiado, dando instruções de coacher, fazendo acontecer… Saem pois estão indo na direção do show: na calçada, uma limusine imensa e branca. Do lado de lá da calçada estão fãs meninos e meninas, e adolescentes; gritam na saída do portão da costureira, para cada um deles. A limusine tem teto solar. Assim o diretor-roteirista do video fez com que cada um deles “aparecesse” no buraco do teto – como num teatro de bonecos – e quando cada um deles aparece, não é necessário dizer nada: a plateia extasiada do outro lado da calçada canta o refrão de cada um. Eles estão de costas para nós; vemos suas aparições e as reações daquele pequeno público: frenesi, gritos, jogo de corpo, brincar de coadjuvante de clip… É nóis na limusine.

A grande questão para mim não seria a “erotização” das danças e dos temas. A “erotização” ta na boca do povo. A erotização precoce combina com tiros de bala perdida, com pontos de fumo, com dinheiro fácil e com sonhos de consumo (“dar um carro pra minha mãe”). A erotização está em toda e qualquer campanha de cerveja na tv brasileira (“Vai Verão!”, quem não viu?). A grande questão reside na condição de infância, puberdade e adolescência em que os meninos de sucesso se encontram.

O que é precoce é um múltiplo assédio: a agenda, a necessidade de cumpri-la com ensaios, sessão de fotos, abordagens suspeitas, propagandas e neuroses do trabalho. (Não estavam Sandy & Junior vivendo isso também? Como e por que ninguém se incomodou? E a Maísa, que agora já alisa seus cachos?).

A erotização precoce traz riscos sérios, de vontade de crescer mais rápido. Vida sexual ativa precoce, sem educação sexual, gera bebês-filhos-de-crianças, a serem usualmente criados pelas avós: isso já acontece pelo Brasil afora, faz um certo tempo.

Sexo precoce parece coisificar o outro, e a si mesmo; “sou gostosa mesmo, e daí?”: consideram que, dizendo isso, sendo assim, são “mulheres resolvidas”.

A extrema externalização, a visibilidade, o estar no baile funk de mini-saia e sem calcinha,  parece levar a uma baixíssima interiorização. Vida interior, vida imaginativa, vida privada levam a um grau de intimidade e vínculo que são ingredientes de amorosidade e cumplicidade entre pares. Talvez a maior crueldade que estejam fazendo com os MCs Mirins seja essa: privação da gênese de um eu capaz de vida privada, segredo, mistério e silêncio – ingredientes da quietude, tão em falta no Brasilzão. Coisas geradas, inicialmente, no brincar relacional e imaginativo. Tenho este desafio como docente em uma graduação em teatro, que forma professores — ensinar outra qualidade de teatro de bonecos:

 

 

1 comment for “Behaviorismo cultural

  1. Floriano Marcondes Machado
    4 de maio de 2015 at 15:23

    Adeus, Brazilsão, viva o Brasilzão!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


6 − cinco =