Prisão no Brasil aos dezesseis anos de idade

Vi esta charge na última quarta-feira, 8 de abril, em versão eletrônica da “Folha de São Paulo”. Posto aqui pois há uma grande potência neste humor; responsabiliza a sociedade adulta, na figura de um policial/soldado, que tenta “amenizar o quadro”: retrata, de fato, a crueldade e a ingerência dos adultos, não das crianças e jovens. Humor ácido, crítico e inteligente, em apenas duas imagens:

Estava com uma amiga numa pracinha, jogando conversa fora. Ela disse satisfeita que a lei para regulamentar a maioridade penal tinha “passado” – você viu? Ao que eu respondi, “está tramitando, ainda não passou…” [breve silêncio]

E digo: você sabe, né?, que é um retrocesso?

A amiga: e qual é a sua solução? [brava, pois ela já viveu dois sequestros relâmpagos, o que a leva a ter ‘medo de menino humilde de boné’]

Digo: uma vida melhor para crianças e jovens…

Ela responde: ah, sim…..[em tom irônico] mas isso vai levar tempo…

Se a sociedade civil que está a favor da maioridade penal aos dezesseis anos de idade pensa como ela (“vai demorar muito um projeto com foco numa infância e juventude melhores”), então, que se pense ao menos sobre para onde irão os rapazes e moças de dezesseis a dezoito anos, quando presos. Que pleiteiem no mínimo uma reforma carcerária, e meditem algo na direção de um pensamento-ação sobre o que foi feito da juventude. Grande parte dos adultos “pessoas comuns” que apoiam a nova maioridade penal são os mesmos que dizem pelas praças públicas algo assim como: “não precisamos partidos” – “deixem que nos governaremos” – etc.

Eu ainda concordo com Hanna Arendt, em sua reflexão sobre os rumos da educação: são os adultos que recebem as crianças no mundo. Precisam muito perceber isso: que o mundo já lá estava, quando as crianças (todas elas) nasceram.

Volto então a uma pergunta recorrente em mim e no Agachamento: o que fazer de uma existência?

Desejar gente de dezesseis e dezessete anos na cadeia, no meu ponto de vista, é sinônimo de não importar-se com quem são os jovens e como e por que se tornaram hediondos. Os brasileiros estariam como o macaquinho que tampa ouvidos, olhos e boca: não ouço, não vejo, não falo.

 

 

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