Sobre fundamentalismos

Título Original: Kreuzweg

Título no Brasil: As 14 estações de Maria

Diretor: Dietrich Brüggemann

Roteiro: Dietrich Brüggeman e Anna Brüggeman

Elenco: Lea Van Acken, Franziska Weisz, Florian Stetter, Hanns Zischler, Anna Brüggemann, Sven Taddicken

Duração: 1h50min

País: Alemanha / França

Ano: 2014

Este filme ganhou o Urso de Ouro por melhor roteiro. É uma pequena obra prima filmada em 14 quadros: as estações de Maria (como diz o título).

Penso ser uma lição sobre o distanciamento como “conceito alemão”: distanciamento do cineasta de seu próprio roteiro; distanciamento da câmera com um tipo de clareza, frieza, firmeza; distanciamento narrativo, pois a protagonista está de fato “fora da casinha” – desenvolvendo uma grave anorexia que conecta-se com seu fanatismo religioso – mas o filme é feito de tal modo, que vê-se nisso uma terrível beleza. Beleza dos catorze anos de uma menina que vai ser crismada e ao mesmo tempo conhece um rapaz na bibiloteca… cujo nome é Christian. Tudo é: pensado, ironizado, fabulado. Os takes das catorze estações são com a câmera fixa… e assim o cineasta nos faz refém do próprio distanciamento, como que nos proporcionando uma intensa experiência estética, na qual a personagem da mãe nos apresenta um dos pontos de vista: a crença de que ali operou-se um milagre (e não uma crueldade com a impossibilidade de Maria viver seu fluxo vital e de satisfação, revelada pela atração ao “mundo lá fora”). Só há uma possibilidade: “um dentro”; e este “dentro” é a expectativa unilateral da mãe com a religiosidade, e estreiteza da filha.

Todos que querem referências sobre fundamentalismos na contemporaneidade devem ver este filme!

Todos que querem saber sobre novos modos de fazer cinema, e de atuar, também!

Todos que tem coragem para ser espectadores de uma crudelíssima narrativa, cuja frieza (como escolha estética!) é emoldurada pelos enunciados literais da via crucis… precisam conferir.

Todos que querem compreender coisas incompreensíveis a olho nu  (do leitor desavisado ou impaciente) acerca da cultura germânica e da filosofia alemã…

… pois até mesmo a noção de “colocar entre parênteses” preconceitos e julgamentos de valor está em jogo!

Simplesmente imperdível. Mas assustadoramente triste, preparem-se.

 

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