Pitadas de autobiografia

Nunca fui uma loirinha-de-olho-azul

me vejo no jerry

Ainda em ressonância/consonância com a postagem anterior, gostaria de dizer algo sobre ser um eu arvorado. Um eu arvorado fica desarvorado quando se angustia ou enraivece…?

Ta lá, no dicionário Caldas Aulette da internet, três significados para desarvorar: retirar-se apressadamente, fugir; fazer perder ou perder o bom senso, a noção das coisas ou o controle, a calma; na linguagem do mar, perder os mastros.

Em um fluxo de associações: Marina significa “menina do mar” – hoje mulher, amanhã velhinha… Hoje arvorada, amanhã…

Enfim, embora tenha sido sempre miúda e na pequena infância bem loirinha, e meus olhos são azuis, nunca me senti uma loirinha-de-olho-azul. Aliás quantos mil adultos quiseram fazer bilu-bilu na loirinha e a menina do mar desarvorava! Desaforava? Nem tanto, mas escondia-se atrás das pernas da mãe.

Na paquera, mesma coisa: nunca funcionou que um homem elogiasse meus olhos.

Volto a duas postagens anteriores: então quem sou? (Esse famigerado “quem” dos personagens dos jogos teatrais, da pergunta antropológica, dos interrogatórios que buscam culpados também…)

Sou a filha caçula da dna. Dulce.

Sou a compositora do Agachamento.

Sou a mãe do Jonas.

Sou inegavelmente uma entidade negra, africana-ancestral que cantou na aula para os meninos da UFMG:

eh meu pai / eh meu pai / eh meu pai – quem veio à aula viu;

primeiro usando uma panela como microfone, depois colocando a panela como rosto-sem-rosto, depois cobrindo com um pano branco e preto, que em uma outra história era um pano que não queria ser pano, o que inspira outra história:

Era uma vez uma loirinha-de-olho-azul que não queria ser pequena nem chamar a atenção pelos olhos azuis

Era uma vez uma criança brasileira da década de 1960 que dançou Twist and Shout

Era uma vez uma babá maranhense, negra, que deu para a menina a lembrança do seu nariz grande, colo largo e um cheiro muito típico

Era uma vez uma professora universitária que virou uma babá maranhense e desarvorou no mar azul

e por fim, parafraseando o mestre Ilo Krugli, na História do Barquinho: marina não é um barco, marina é uma flor.

 

 

 

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