Um eu arvorado

Esta imagem está no livro Roland Barthes por Roland Barthes (São Paulo: Estação Liberdade, 2003); ela foi reproduzida, provavelmente a partir da impressão em papel, da Enciclopédia organizada por Diderot entre 1750 e 1765. A legenda de Barthes para a imagem é também os últimos dizeres do livro, composto por fragmentos autobiográficos:

Escrever o corpo. Nem a pele, nem os músculos, nem os ossos, nem os nervos, mas o resto: um isto balofo, fibroso, pelucioso, esfiapado, o casacão de um palhaço.

(Que bonito! E pessoal, e bizarro, e barthesiano…)

Para mim, a figura é um enigma, e me vejo demais nela!; brinco, me comunico, e a nomeio um eu arvorado. Pessoa-árvore, espera flores e frutos; pessoa-árvore, engalhada consigo mesma. Imagem talvez da maturidade: quase tudo enraizou-se e há densidade, preenchimento de espaços. Mas também paradoxalmente lembra meu berço! Minha mãe contava que eu levava, à noite, muitos e muitos brinquedos para meu berço, só sobrando um pedacinho para me deitar.

Espaço preenchido, levemente assimétrico, cuja cabeça é desenhada por diversas arvorezinhas… Espaço corpo próprio que remete a contos de fadas. Transformar-se em criatura bizarra nascida da terra. Um isto engalhado. Imagem de um corpo imaginativo. Corpo-índice, uma espécie de ordenação da natureza por meio de uma cultura dos galhos e das árvores, desenhadas tal como ‘entidades’.

Talvez não por acaso, escrevo este fragmento na beirada do outono. Minha estação preferida.

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