Bebê desbanca [algumas] teses de professora doutora

"papai, prefiro ir ver os burrinhos no parque municipal"

Certa manhã, em uma lojinha de xerox e impressão de fotos, João Vítor, um quase-bebê de cerca de um ano e meio, foi capaz de desbancar uma série de pressupostos que eu vinha carregando, acerca da “era digital” e os modos de usar tecnologia na infância.

Tudo começou com sua entrada no colo do pai: um pequeno menino de shorts e fralda, que não queria ser sentado para o pai retirar a senha… ele ‘vence’ e é levado até o balcão com o pai. Ele quase não fala frases, fala palavras-síntese, mas é extremamente expressivo… e sedutor: percebe que está fazendo sucesso entre os adultos que esperam a vez. Também é nítida sua inteligência, seu ‘corpo total’ conversa com o pai, todo o tempo; e o pai é um excelente ‘tradutor de mundo’ para ele.

O pai se senta e ele fica em pé; entre o pai e eu, uma cadeira vazia. Rapidamente a cadeira se torna uma espécie de mesinha e ele conversa também corporalmente comigo – olho no olho, um sorriso que mostra muitos dentinhos brancos e vontade de comer o mundo… O pai tenta nos mediar, mas não funciona, pois eu não me comunico em palavras: propositalmente quero continuar em contato olho no olho e sorrindo, quando ele também sorri.

João Vítor pega então o celular do pai – sim, um smartphone. Ele sabe tudo! Não usa o indicador, usa o dedo do meio; e vai navegando…! Acha fotos. Acha música. Acha youtube! Com precisão e com intuição: ele se mostra a interatividade digital encarnada. Lembrem-se: ele não tem ainda dois anos de idade.

Em sua ação interessante e interessada, em nenhum momento “alienada” do aparelho, do pai, de mim ou do ambiente da lojinha de xerox, em cerca de dez minutos de convivência, João Vítor me convence. Caem meus preconceitos e meu amor – e orgulho – por meu telefone dinossáurico. Vou também ter um smartphone.

Mas atenção: isso em nada significa que “O Agachamento apoia o uso de celulares por bebês”!!! (Há inclusive pesquisas em curso sobre indícios de danos nesta exposição massiva aos estímulos eletro-eletrônicos que as crianças pequenas estão submetidas).

O assunto desta postagem é o que aconteceu naquela manhã de sábado: exemplo de uso compartilhado de uma ferramenta cultural,  beleza da presença adulta no modo de relação pai-e-filho, e sobre como precisamos saber lidar com os novos modos de ser e estar diante das crianças. O pai era conversador, afetuoso, lúdico e, ao menos aparentemente, saberia tirar seu filho da hipnose tecnológica para brincar com bolas de gude ou tomar banho de esguicho [enquanto ainda temos água].

1 comment for “Bebê desbanca [algumas] teses de professora doutora

  1. TAIS FERREIRA
    27 de fevereiro de 2015 at 11:12

    então eu devo ser a última dinossaura que matou seu dinossáurico celular afogado na patente e não tem um smartphone. nem um celular. mas sou viciada em facebook, deve ser bem pior do que ter um celular.

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