O que fazer de uma existência?

charge Angeli na Folha de São Paulo

Esta charge do Angeli foi publicada no final de semana que passou; penso que uma boa charge nos dá grande “liberdade de interpretação”, ao mesmo tempo em que não nos deixa esquecer do mundo, dos acontecimentos cotidianos, algo que a fenomenologia chama de mundaneidade… Associei, assim, à charge, três significações: o atentado aos humoristas na França, à morte por fuzilamento do brasileiro traficante na Indonésia, e também, ao filme que assisti ontem, “Ida” (filmado em 2013, co-produção dinamarquesa e polonesa, direção de Pawel Pawilowski e concorrente do Oscar de melhor filme estrangeiro).

No filme assistimos, com uma simplicidade e crueza cinematográficas, o desenterrar de um casal e um menino, pais da protagonista e seu primo, mortos em condições obscuras, por serem judeus. Tudo isso nos leva a um clima de persecutoriedade e injustiça; o filme é uma pequena obra prima (ah, penso que a charge também!), filmado em branco e preto e cheio de silêncios – intercalados com musicalidades – não “trilha sonora”! O filme nos transporta para um tempo existencial, de escolhas biográficas, de algo que apreendi em um texto do psiquiatra Binswanger, relato sobre uma paciente suicida:

O que fazer de uma existência?

Escolher o humor  como forma de resistência; escolher a religiosidade; escolher o cinema como modo de vida; escolher o tráfico de drogas e uma vida de risco, sem nunca achar que será pego e punido (é o que dizem as reportagens, que até o final o homem negou sua condição)… escolher morrer e matar por sua “causa”.

Percebo, também em conversa com a charge do Angeli, como minha escolha fez sentido para mim: o reduto-infância; procuro não correr o risco da pieguice ou do complexo de Peter Pan; escolho o campo reflexivo da infância; o recorte filosófico, alguns nomeiam o devir criança… em nome do que há de novo e das possibilidades de novidade no/com o outro. Humor, cinema, (auto)biografias, construção e destruição em histórias de vida: o que fazer de uma existência?

 

1 comment for “O que fazer de uma existência?

  1. Raysner
    27 de janeiro de 2015 at 12:19

    Ei, Marina.

    Ontem fui ao Belas e assisti o “IDA”.
    Que belo filme. E foi ótimo ter lido a sua postagem antes porque já fui atento para os silêncios/musicalidade do filme que me encantaram.

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