Brincar, criar, imaginar, inventar… mentir?!

Em meus textos, aulas, oficinas, etc, costumo nomear uma atitude adulta, bastante frequente junto a crianças pequenas, de “realismo estrito senso”. Nos momentos em que digo que o adulto está sendo isso, um realista estrito senso, é praticamente um xingamento… pois minha argumentação é sempre na direção da capacidade de brincar e imaginar das crianças, algo que os adultos muitas vezes perderam; desligaram-se deste modo de ser; e alguns, nunca tiveram este espaço psíquico que Winnicott chama de “espaço potencial”, que acontece entre realidade e fantasia. Um exemplo seria: dizer para uma menina descer do muro porque ela está brincando de ser aviãozinho, e ela não é um avião, é uma menina e pode se machucar!

presidenta neste momento brinca ou trabalha?

No entanto neste finalzinho da campanha eleitoral fiquei muito transtornada, com o uso que foi feito da internet para divulgar mentiras – ou inverdades, como lembro de alguns políticos dizerem. O mais impressionante é a veracidade com que pessoas comuns, os eleitores, narravam estas notícias, “obtidas” na internet: eram mesmo crédulas! Poderia ser algo que eu valorizasse por serem “etnoficções” (rs) ou “performances narrativas” – temas pelos quais tenho me interessado ultimamente… mas a sordidez dos objetivos daqueles que inventaram esses “causos” é assustadora. Não dá para ter humor diante disso. Descobri que estas criações são chamadas de hoaxes – palavra que designa lendas urbanas e boatos, e já há inúmeros sites ocupados com isso: desfazer boatos!

O que retorna para mim é a discussão entre adultos, bastante frequente durante toda a primeira infância de seus filhos, do que é mentir – em contraposição com imaginar e fantasiar. Trata-se de um tema extremamente contemporâneo! E que me lembra uma frase do filósofo Gaston Bachelard: a infância, por alguns de seus traços, dura a vida inteira. Talvez um dos traços do modo de ser criança que permanece seja esta plasticidade, este território movediço entre realidade compartilhada e fantasia, mundo ‘real’ e criação. Algo que os produtores de propaganda e “marqueteiros” sabem muito: desde vender um carro como melhor amigo do homem, até dar uma cara feia para a Maníaca da Limpeza, diante dos produtos ‘mágicos’, que tudo limpam sem o menor esforço.

No campo das notícias falsas criadas para dar medo, mudar o voto, acuar as pessoas, no sentido mesmo de “desinformá-las”… esta capacidade imaginativa torna-se extremamente persecutória; ela faz uso do aspecto crédulo das crianças, para as quais tudo que é dito pelos adultos ao redor, é fato: é a boa fé. Portanto disparar boatos e farsas é algo que pode ser chamado de perversão, e também má fé. O paralelo que faço é o modo criança em alguns adultos, crentes em tudo que “deu na internet”; sem critério, sem filtro, e também sem nenhum desejo de “checar a fonte”.

Os adultos “realistas estrito senso” quase sempre argumentam que agem na direção contrária à fantasia da criança para protegê-la. Há pouco tempo conversava com um cabeleireiro no salão de beleza, e eu argumentava com ele a favor do “brincar de faz de conta”. Ele me disse, nua e cruamente, que eu não sabia qual era a realidade que o neto vivia, o que acontecia no entorno, e que ele jamais deixará o menino brincar de bandido, nem tampouco de arma ou espada. Também via em seu discurso algo como “é preciso educar para a vida” – e a “vida real” é dura e impiedosa, “não está para brincadeira”. Era seu subtexto. Detalhe: o neto tem três anos de idade. Eu, psicóloga formada, mestre em artes, doutora em psicologia da educação com pós-doutorado em pedagogia teatral… me senti extremamente impotente diante da sua verdade.

 

 

 

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