Vãos livres

A avenida Paulista é mais ou menos um lugar da minha infância… meus avós paternos moraram por anos e anos na rua Cincinato Braga, e, por incontáveis domingos, eu via a avenida pela janela do carro do meu pai, em companhia de meus irmãos; depois, já andava de ônibus, voltava com primas do cinema, descia a rua Augusta no seu auge de glamour… depois guiei meu Fusca, e a avenida era rota de volta do trabalho no Jabaquara, ou rota de lazer: cinemas e livrarias em especial.

O primeiro e único blind date que combinei [no Brasil  rs] foi no vão do MASP. Recém-separada, já na década de 1990, achei que era um lugar interessante e ‘seguro’ para encontrar um desconhecido. Hoje, preparando esta postagem, percebo o valor do vão vazio [de 74 metros] do MASP:

Lina Bo Bardi desenhou esta imagem: um devaneio para o vão livre

Do projeto à construção, passaram-se 10 anos; a sede do MASP na Paulista foi inaugurada em 8 de novembro de 1968… pela rainha Elizabeth II! Soube disso hoje, agorinha, pesquisando a história do MASP na wikipedia: e então agora sei por que vi, aos sete anos de idade, a rainha Elizabeth em defile em carro aberto, av. Rebouças esquina com rua Capote Valente! Foi como em um filme europeu, mas branco-e-preto (tamanha a elegância e a estrangeiridade, para mim); a rainha acenava para centenas de pedestres com luvas brancas e bolsinha (da realeza!) no braço.

imagine-se vão livre

Quarenta e seis anos depois da inaguração do MASP, o vão livre continua sendo um lugar especial… cuja potência paradoxalmente concentra e dispersa, pessoas, energias, classes e gêneros, e para mim, que hoje nomeio minha pesquisa acadêmica em teatro como “dramaturgias do espaço”, traz uma possibilidade para praticar o tripé bachelardiano memória – imaginação – poesia.

O croqui de Lina conversa diretamente com a minha infância: coincide em cronologia, e, hoje, me convida à temporalidade dilatada dos espaços encontrados.

um tipo de ocupação do vão livre

Gosto muito da imagem/expressão “vão livre” e enxergo conexões com: o conceito “espaço potencial”, com o “MA” oriental, com carrinhos matchbox (brinquedos dos meus irmãos), com a concepção do projeto do SESC Fábrica da Pompéia, e de como fugir da chuva em plena avenida Paulista. Dentre outras coisas. Infelizmente lá também estão ocorrendo assaltos e drogadição. Um espaço rico em contradições:

será que Lina vê isso do céu?

 

1 comment for “Vãos livres

  1. Raysner de Paula
    1 de outubro de 2014 at 14:35

    Que bonito passeio pelo vão do MASP que você me levou agora, Marina.

    P.S: além de enriquecer meu vocabulário, rs… Blind date! 😉

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