Repertoriar-se

um menino e sua intimidade

Assisti ontem ao filme Pelo Malo – se traduzido, se chamaria “Cabelo Ruim”; assim o fizeram em inglês, “Bad Hair”, mas os distribuidores no Brasil escolheram manter seu título em espanhol… (sinal dos tempos do politicamente correto? Ou da falta de humor e sensibilidade?).

Este é um filme venezuelano de uma diretora bastante premiada, Mariana Rondón. Foi rodado em 2013 e trata da história de um menino de nove anos cuja questão aparente é: ter cabelos muito crespos; sua fantasia é ter um cabelo liso para poder posar em uma foto, tal como um cantor. Sua melhor amiga quer posar como Miss (esta personagem nos lembra outro filme, “Pequena Miss Sunshine”). Eles precisam tirar um retrato para levar para a escola, vai iniciar-se o ano escolar, entende-se que é para uma espécie de portfólio ou livro do ano; eles querem e imaginam um tipo de foto – fotomontagem cujo significado no filme é incrível, real e metafórico, a puberdade encarnada nos intérpretes – fotos que o fotógrafo “de bairro” faz, com uma câmera digital e fundos que monta, por algum dinheiro, coisa aliás que o menino Junior não tem: sua mãe perdeu o emprego de vigilante, é viúva e tem dois filhos para criar. Tenta contar com a ajuda da avó, esta uma personagem também incrível no enredo.

O desejo de Junior de ter cabelo liso é pano de fundo para que o filme converse com o espectador sobre a puberdade, o racismo, a homofobia, a solidão da mãe viúva e o estado identitário do filho – momentos aparentemente incompatíveis, que levam a mãe a temer que seu filho seja homossexual, enquanto que ele mesmo quer ser bonito:  ser desejado por ela, como percebe o amor e a corporalidade entre ela e seu irmão bebê.

Nas palavras da cineasta, este filme possui um “espaço bastante pensado para o olhar do espectador” – o que faz dele um filme com produção simples e extremamente contemporâneo, no qual nós completamos as cenas, os dilemas, as dificuldades, as crueldades, em nós mesmos, sentados na sala de cinema. Ela também disse ser o filme um trabalho sobre “o respeito ao outro, sobre a intolerância e sobre deixar que o outro coexista”.

Os dizeres da cineasta, que li em entrevistas, contrastam demais com os releases que encontrei na internet… fica claro como o jornalista/comentarista brasileiro, das sessões de entertainment (rs) está despreparado para falar de questões existenciais, éticas e estéticas, como as encontradas em um filme como este. Destacam, por exemplo, que o filme retrata uma Venezuela de “forma esquemática”… e isso seria uma crítica “política” ao filme; no entanto tudo que o filme nos mostra é político, o desemprego, o machismo, os preconceitos com o cabelo crespo, com a suposta homossexualidade,  a concessão da mãe fazendo sexo com o chefe para reaver seu emprego, a avó tentando modelar o neto, etc.

Trata-se de um filme que repertoria o espectador nas questões da puberdade, pelo maravilhoso desempenho (com mérito também da direção de ator) do menino Samuel Lange Zambran que interpreta Junior, criando um retrato de um cotidiano venezuelano vivido pelo personagem com sensibilidade, humor e angústia. Destaco as inserções do brincar, entre ele e a amiga que quer ser Miss, e dele sozinho, de modo que o filme também brinca imaginativamente conosco. Outro primor é o retrato da sexualidade da jovem mãe viúva, em cenas contrastantes entre seu desejo e seu “dever” de trazer uma figura masculina para dentro de casa (tal como o pediatra tenta lhe explicar, em um rápido aconselhamento). Enfim, uma pequena obra prima que vale a pena ver e rever.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


9 − = sete