Faltou “dar voz ao infante”!

Está em cartaz em Belo Horizonte o filme documentário “Tarja Branca”:

Trata-se de uma compilação de depoimentos sobre “a importância do brincar”, do ponto de vista de inúmeros adultos… a maioria letrados, bem formados, bem sucedidos em suas profissões. O filme tem direção de Cacau Rhoden e sua “tese” é de que brincar é a salvação (!?), daí o subtítulo “a revolução que faltava”… bem como o trabalho adulto “bem sucedido” é brincante. Poderíamos dizer que são as teses da psicanálise, especialmente da psicanálise de crianças — brincar como saúde psíquica — e da psicanálise de adultos: faça o que gosta e serás feliz…

Penso ser um “filme de tribo”, e essa tribo é uma de artistas quase todos moradores das grandes cidades e que falam o “dialeto Vila Madalena”. O cineasta optou por poucos depoimentos de “pessoas comuns”… e nenhum depoimento de crianças! (Apenas imagens, muito bonitas aliás).

É meu ponto de vista que o filme teria muito a ganhar se não re-convidasse, em seu final, os mesmos depoentes da primeira parte… e fosse a campo, ver como as crianças brincam, Brasil afora. Incluindo as crianças pobres e de certo modo invisíveis, incluindo adultos de profissões nem tão charmosas: lixeiros por exemplo. De noite, na av. Brasil de Belo Horizonte, há um horário mais ou menos fixo que os lixeiros passam. Sua performance é sempre marcante e às vezes ‘temática’, com gritos e saltos e pulos e um tipo de energia, aquela que faltou à seleção brasileira de futebol…

Saber conversar com as crianças e editar seus modos de ser e estar “para além da imagem”, é algo que ainda está por vir; um campo de trabalho e pesquisa que certamente se localiza nos estudos da Antropologia da Imagem e que requer sensibilidade, escuta, e muito poucas certezas. O documentário “Tarja Branca” peca também por isso: quer provar sua tese a qualquer custo, e deixa de lado as outras cores de tarjas dos mundos de vida da criança brasileira. Seu segundo pecado é a crença na “criança interior”, um psicologismo que empobrece a reflexão sobre o papel adulto, diriam alguns ético, estético e político, frente às crianças mesmas. (Agachar-se não é voltar a ser criança!).

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