Menino Carne Viva

Ontem estive em um Colóquio para os profissionais do Projeto de Iniciação Artística, o assim chamado PIÁ, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Depois de um exercício de escuta da paisagem sonora pelo centro da cidade, proposto por Moacir Carnelos, e outras intervenções e conversas… Li o seguinte texto, escrito por mim alguns anos atrás:

Menino Carne Viva

Um dia, do alto do outeiro desceu um tristonho menino.Vinha triste porque riam do seu terno-e-gravata: só por que tinha seis anos não podia brincar de adulto? Trocou de roupa, e riram mais ainda — vestido de anjo de presépio, os outros, até os adultos, atiraram laranjas podres e bitucas de cigarros. Ao chegar no terreiro, no pé da montanha, procurando por um jeito de não ser risível, descascou sua pele e tornou-se o Menino Carne Viva. Ninguém riu, ninguém chorou; ganhou lugar no circo, que na noite seguinte mudou de cidade, e eu nunca mais soube dele.

Era meu irmão mais velho.

Mandou um cheque para minha mãe, dez anos mais tarde.

Desconhecia qual seria o efeito, a “eficácia simbólica” desta leitura. Foi surpreendente. Consegui mobilizar adultos educadores para pensar e sentir algo em carne viva… sobre a possível tristeza e sofrimento da condição de ser criança, e visitamos, de modo único, lugares e tempos do brincar de faz de conta, ser zoado, trabalhar em condições inumanas. Não é por acaso que um dos meus cult movies é O Homem Elefante, de David Lynch. Filme que merece diversas postagens!

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