Conheçam Paulo Freire, Violeiro

Paulo Freire toca viola e conta causos… para crianças de “todas as idades”

 

Paulo Freire, violeiro

quando ele procura por sacis

No último domingo, 11 de agosto de 2013, Belo Horizonte recebeu no Teatro Bradesco o músico, violeiro e contador de causos Paulo Freire, que apresentou um trabalho intitulado por ele “Medo Pequeno Medo Grande”.

Entro no teatro (grande!) e já gosto do que vejo: o setting é um microfone e uma cadeira.

Nada, absolutamente nada nos remete aos arremedos infantis, tais como cores, balões, nuvens, guarda-chuvas, flores, ou quaisquer outros acessórios “para crianças”. Estética bossa nova no século XXI, tempo no qual a noção de infância dos buffets infantis assola as crianças e seus jovens pais.

Depois das ritualísticas campaínhas e do video de marketing do evento, instruções da saída de incêndio, etc etc, sobe a telinha da projeção e… lá vem Paulo Freire – o músico, filho do terapeuta Roberto Freire – calça jeans, camisa xadrez, tocando viola; entra andando. Simples assim.

Senta-se e… conta causos, entremeados com canções. Nenhuma necessidade de direção infanto-juvenil. Liberdade para falar de lobisomem, diabo, Cobra Norato, medo grande, medo pequeno. Paulo é um músico exímio e pesquisador da cultura brasileira, conta-nos os causos de modo manso e ‘auto-biográfico’… pois, ele esteve com o diabo! E pasmem: o diabo toca viola melhor que ele mesmo!! Rs

Estou certa que tivemos uma escola em comum, chamada Casa do Ventoforte, nos anos de 1980, 81 e 82, e que esses anos são parte importante do pano de fundo de sua pesquisa atual. “Show” de um homem só. Remetimentos ao imaginário brasileiro, e ao modo de ser criança – sem infantilismos. Simples, bonito, enxuto, extremamente bem executado mas sem nenhum preciosismo ou enfeite rococó; duração de mais ou menos uma hora; sem seduções, conquista o público aos pouquinhos, pelo gesto e pela palavra, e sua incrível habilidade para tocar viola e cantar: envolvimento crescente e forte das crianças presentes… envolvimento também “simples assim”. Não tem micagem. Não tem brinde no final. E prescinde de vender CDs!

Obrigada Paulinho por existir neste mundo encaretado e travestido pelas políticas públicas dos “produtos culturais para a infância e juventude”; obrigada por fugir (sem esforço maior) do politicamente correto e dos apelos estereotipados dos marketings tanto cultural quanto pessoal; obrigada por manter-se você mesmo, coerente consigo e com sua pesquisa. Com seu gosto. Simples assim.

Quero ser como você – tento ser como você, coerente, filha de pais de parte de uma geração que conseguiu nos ensinar a não fazer concessões, especialmente aos apelos fortes do dinheiro, seus desdobramentos e suas cores “próprias para crianças”. Me orgulho de ser sua irmã (na filiação Ventoforte) e de pertencer à mesma geração, trazemos a marca de um tipo de resistência, que conseguimos exercer graças aos pares e a um tipo de compreensão e cumplicidade de gente mais jovem. No meu caso, hoje, meus alunos na graduação em teatro da UFMG; no seu, certamente, os jovens pais que levam seus filhos e compartilham da experiência vivida durante seu trabalho. Ninguém na plateia, que eu observasse, teve a necessidade de fotografar ou filmar! Único e surpreendente. Arquetípico e contemporâneo.

Para concluir: eu amo Paulos Freires!

 

3 comments for “Conheçam Paulo Freire, Violeiro

  1. Karen
    17 de agosto de 2013 at 00:23

    Marina,
    assisti a um show lindo! não tão limpo como este… mas simples e incrivelmente lindo! as letras das músicas são os poemas do Manoel de Barros.
    olha o link: http://www.crianceiras.com.br/

    e olha meus sobrinhos (a Lara e o Lucca – que é o último a falar…) – titia corujassa!
    https://www.youtube.com/watch?v=YU_–Zcluak

    bom, to aqui em Floripa. logo escrevo contando as novas…
    beijo! e obrigada por deixar um pouco de vc aqui e, assim, continuar minha terapia…

    • agachamento
      17 de agosto de 2013 at 17:14

      Oi Karen! Sempre fico feliz com suas visitas… Visitei agorinha os dois links. Os dois “fazem uso” do Manoel de Barros… que por si só já basta! A diferença do Paulo Freire é que ele se baseia em seu próprio percurso, ele é músico e pesquisador da cultura brasileira… criou o roteiro de um modo enxuto, a partir da mitologia brasileira, e sua concepção de infância em nenhum momento precisa do refrão “lá lá lá / lá lá lá” — pressupostos do que eu vejo nos produtos culturais para a infância, que aparentemente “sabem do que a criança gosta”! Não é não? Beijos e obrigada pela conversa.
      Marina

  2. Karen
    25 de agosto de 2013 at 04:03

    sim!! achei o Paulo Freire beeem bacana! como disse, o Crianceiras ñ tem essa ‘limpeza’ das influências… mas, bem, foi profundamente tocante o show que vi. e as crianças… dentro. tocadas.
    é por aí a busca, né?
    não daremos aos pequenos o que eles deveriam gostar… eles nos dizem e nos mostram o tempo todo.
    basta olhar, e… agachar-se (é assim que se escreve?)
    beijo!

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